O Trabalho e a Contemplação, Dilemas do Século XXI
01/01/2026
"Cansaço", por Leila Alberti
Como são maravilhosos estes dias de verão, não mais que duas semanas de férias, sem as obrigações do trabalho, um verdadeiro desligar da tomada da rotina e um conectar à natureza, aos pensadores de ontem e de hoje, seus livros e opiniões, que me remetem à também deliciosa contemplação. Mas não apenas de obras de arte, dos museus e bibliotecas, das belezas das praias, montanhas e vales, com boa comida e bons vinhos em ótima companhia. Claro que me concentro nos textos – filosóficos ou não – do pensamento humano que está sendo emulado ao longo dos séculos recentes.
E me chegou às mãos, por empréstimo de filho músico e nora, o livro “Sociedade do Cansaço”, do filósofo Byung-Chul Han, que trata de questões atuais, de uma sociedade cansada de suas próprias falhas e cobranças – em todos os sentidos. E é da leitura veloz e interessada deste pequeno livro que me ocorrem estas minhas reflexões, na virada do maravilhoso ano de 2025 para o desafiador 2026.
Começo pela análise – com a ajuda da sabedoria do notável filósofo coreano – do nosso homem atual, sujeito do desempenho pós-moderno, que dispõe de uma quantidade exagerada de opções, que não é mais capaz de estabelecer ligações intensas. Ele é escravo até de si mesmo, é ao mesmo tempo vítima e vigia, um sujeito de obediência assim indicado por Immanuel Kant: “Todo homem tem uma consciência moral e se vê observado, ameaçado por um juiz interno, que o obriga ao respeito (com medo que isso lhe custe alguma advertência); e essa violência que vigia nele para o cumprimento das leis não é algo que ele próprio cria (arbitrariamente), mas está incorporada em seu ser” (Kant, I, 1983 – ed. De W. Weischedel).
Moralmente este sujeito atual, no contexto do ser maximamente produtivo versus contemplativo é, ao mesmo tempo, o acusado e o juiz. Reprime todas as inclinações para o prazer em favor da virtude, mas o deus moral recompensa seu trabalho com dores e sofrimento, dando-lhe bem-aventurança. O sujeito moral aceita a dor e o sofrimento por causa da moralidade, pois está seguro de receber sua gratificação. Ele mantém uma relação íntima com Deus, pois em Deus ele pode confiar, ele “está vendo todo o esforço feito” e saberá recompensá-lo, ele pode ser porto seguro a qualquer momento e em qualquer situação de dificuldade.
O sujeito da pós-modernidade espera alcançar rapidamente o prazer e a consagração. Ele ouve apenas as suas razões, afinal ele é um empreendedor de si mesmo. Ele autoexplora-se de modo cada vez mais efetivo, quando se mantém aberto para tudo. Ele não aceita os sentimentos negativos, ele não admite conflitos. Sua concorrência não é mais entre grupos, mas individual. Esqueça ideologia, classes. O sujeito do desempenho concorre consigo mesmo e sob uma coação destrutiva, pois se vê constantemente forçado a superar a si próprio. A negatividade do superego restringe a liberdade do eu.
Desta disputa diária e constante pela melhor performance surgem as doenças neuronais, que são patologias atualmente bem conhecidas e discutidas, determinantes desde o começo do século XXI, como: depressão, transtorno de déficit de atenção, a hiperatividade (IDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou síndrome do Burnout. Para nos limitarmos à mais conhecida e antiga reconhecida, citamos a depressão, mal decorrente desta dicotomia entre a liberdade de nada fazer e o dever, consciente ou inconsciente de ter que produzir para o meio, para ser aceito e reconhecido, aplaudido pelo sucesso esperado na sociedade. Aqui também faz sentido distinguirmos a depressão da melancolia, pois esta é precedida por uma experiência de perda. Se confundem, mas não se complementam.
Em “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche nos diz: “vós todos que amais o trabalho selvagem e o rápido, o novo, o estranho – vós vos suportais muito mal, vossa operosidade e esforço é fuga e vontade de esquecer a vós mesmos. Se acreditásseis mais na vida, vos entregaríeis menos ao instante. Mas vós não tendes conteúdo suficiente em vós para a espera – e mesmo para a preguiça, não!”
Diante destes cenários de disputa pelo sucesso, administrar o tempo é tarefa complexa, porque os esforços todos devem ser concentrados na execução da missão vencedora, nossa, da empresa, da corporação, do país.
Vivemos tempos desprovidos de festividades, época de festa sem a devida celebração. E nem citamos os famosos simpósios de Platão, na obra “O Banquete”, escrito entre 385 a.C e 380 a.C, que tem como tema principal o amor e a amizade (Entre os Molossi e o Vinho, 2021, Prefácio, pg. 11). A celebração – que bem poderia ser um simpósio – deveria acompanhar a temporalidade específica da festa, quando aquela deveria ser o objetivo para o qual caminhamos. Na festa, o tempo como sequência de momentos passageiros e fugidios é suspenso. Entramos no modo celebração quando nos demoramos, não é apenas o transcorrer, não há nada que simplesmente passa.
Quando nos enfeitamos paras festas, ficamos e nos sentimos bonitos – possível apenas para os seres mortais – nos aproximamos, temos gestos assemelhados aos deuses, um traço fundamental da arte, o elemento festivo que está no brilho da alegria, do belo. E se usarmos algum “cosmético” para chegar ainda mais perto da beleza da festa – da celebração verdadeira – devemos lembrar que ele, o perfume e demais truques de embelezamento, nos remetem ao cosmos, a ordem bela primeira, divina.
A experiência de quem vive o tempo da contemplação da arte – e em suas várias manifestações – é o quanto nos demoramos com ela, aprendemos e melhoramos observando ou convivendo. O que poderia explicar admirarmos quadros que foram pintados, criados há séculos e estão nos melhores museus do mundo? Certamente não é porque os vimos num post rápido, um story de rede social. Isso porque os muitos milhares de contatos que temos nas redes sociais não representam nada, são nada, ou apenas uma clara indicação da competição que travamos com nós mesmos pela quantidade de vínculos e não pela qualidade. Amigos verdadeiros e definitivos – dignos de contemplação – são poucos e a vida nos mostra isso o tempo todo.
O tempo da celebração é a festa que não passa, chegamos muito próximo – mesmo que por alguns instantes – do conceito de eternidade. E quem nunca ouviu a expressão: “esta obra é eterna, atemporal, não envelhece nunca!" Isso porque as formas de vida livre, no dizer de Hanna Arendt, tem em comum o fato de se desenvolverem no âmbito do belo, no universo das coisas que não são necessariamente úteis, usadas, não servem sequer para alguma finalidade. Existem para serem contempladas – simples e demoradamente.
E tu, meu amigo, estás com quantas cobranças na cabeça, além da sociedade e da tua mesma? No momento que o mundo inteiro discute o tempo justo que o trabalho deve ter, quem sabe fazemos um esforço para não sermos e estarmos tão cansados! A vida é curta e merece ser bem aproveitada, tudo na medida certa.
Luís Molossi
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