Ulisses Quer Voltar Pra Casa
07/08/2026
Discurso de boas-vindas aos novos acadêmicos da ALB/Pr.
Indicados, todos nós – novos acadêmicos da Academia de Letras do Brasil, Seccional do Paraná – naturalmente, o fomos, por quem nos precede. Isso porque, mesmo com outras múltiplas importantes e necessárias atividades que desenvolvemos, somos escritores, artistas das letras ou de outras artes tão necessárias para que o mundo seja menos pesado; porque “a arte existe para que a realidade não nos destrua”.
Esta afirmação não é minha; é creditada ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, entre os anos de 1887 e 1888, e sintetiza o modo como a expressão estética atua como uma espécie de escudo. Ela transforma o peso e o caos do mundo em algo suportável, permitindo-nos contemplar e ressignificar o sofrimento sem sermos consumidos por ele.
No momento em que nossa digna presidente, Maria Teresa Freire, pediu que eu proferisse estas singelas palavras de boas-vindas a todos vocês, novos acadêmicos, ela apenas me indicou que fosse elegante; e enfatizou: “todos os atuais e novos membros têm a cultura muito presente em suas vidas, escrevem com lisura e de acordo com a língua portuguesa”.
E, de pronto, respondi-lhe: “Somos todos nós pessoas que trazem suas experiências para melhorar a academia”, com o que ela concordou. Sugeriu-me, então, que usasse como parâmetro os ensinamentos da mais famosa e conhecida obra literária, a Odisseia, embora de tradição oral por muitos séculos – quase três milênios – e atribuída a Homero. Isso porque, na conversa, informei-lhe que havíamos acabado de assistir ao novo filme [dirigido por Christopher Nolan] e que dele se extraem referências a guerras épicas, vida, glória, conquistas, fracassos, mortes, expiação de culpa, recomeços e ao permanente desejo de voltar para casa.
Tudo isso é parte da mitologia grega e da sua filosofia clássica, que veio após Homero, bem mais tarde, a partir do século IV a.C., com os consagrados Sócrates, Platão e Aristóteles, que sempre citamos. Aqui me permito lembrar de Heráclito de Éfeso, para quem “não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”, o que explica muita coisa para nós — novos e antigos acadêmicos — que até aqui chegamos após uma viagem que, se não tem a mesma magnitude daquela de Ulisses, é a trajetória singular de cada um de nós até este momento.
Ainda falando dos gregos e de seus ensinamentos, sabemos que o segredo da vida está nas virtudes. Aqui me permito citar – porque tenho muito interesse na sua leitura e entendimento, nos últimos anos – a filosofia estóica de Zenão de Cítio, Marco Aurélio, Epicteto e o romano de adoção, Sêneca, que assim nos ensina: “Um bom caráter é a garantia de eterna e despreocupada felicidade”.
A Grécia nos proporcionou toda a filosofia e todos os relatos de experiências que nos remetem à moderação e ao equilíbrio da via di mezzo. E, retomando o mítico Ulisses, o que fica de ensinamento da sua Odisseia — dos vinte anos que passou longe de sua Ítaca — é que todos nós sempre queremos voltar para casa. Ao contrário de Ulisses, que viveu inúmeros desafios impostos por Zeus, que lhe custaram outros 10 anos de provações após o fim da Guerra de Tróia, nós sempre pensamos em voltar em linha reta, sem as modificações que o tempo oferece, na verdade impõe. Uma vida infinita, aquela eternidade que a deusa Calypso ofereceu ao nosso personagem, não tem a opção da nostalgia.
O problema não é a viagem, nem o retorno: é o NOSTOS. É o desejo de recompor o que o tempo e a distância desconstituíram. Não é apenas retornar a um ponto geográfico. É uma tentativa de recuperar o sentido da própria existência, a nossa própria casa, o nosso lugar, nossos vínculos, a própria identidade, da nossa ordem existencial. Tudo por conta da NOSTALGIA, derivada de Nostos. É o nosso rio citado por Heráclito, que continuou a versar suas águas continuamente e nunca é o mesmo que vimos antes. Assim como nossos vínculos, amores, familiares ou não.
Para os gregos, nossa morada não é apenas a construção, é o oikos, é a casa, a família, a memória dos antepassados, o patrimônio, os afetos, o “lugar” que ocupamos no mundo. Então Ulisses queria recuperar uma verdadeira ordem existencial.
E por que o poema Odisseia continua vivo depois de quase três mil anos? O filho Telêmaco cresce sem a presença do pai, a esposa Penélope envelhece, mas Ulisses também não voltou o mesmo que saiu. Teve que se vestir como mendigo para reconhecer o que mudou e como se encontrava a sua velha identidade. Aquele do ANTES não existia mais — assim como podemos fazer um paralelo hoje com o ambiente de antes da doença, antes da separação, antes da quebra, antes da queda...
O que fica para mim das lições desta Odisseia é a Lei que é atribuída, mais de uma vez no curso da narrativa, a Zeus: a de que devemos tratar todos com generosidade, acolhimento e amor. É o mesmo que Jesus Cristo pregou um pouco mais tarde: que façamos aos outros o que gostaríamos que fizessem conosco.
E este dever universal, Xênia (do grego xenia), significa, essencialmente, hospitalidade ou recepção amigável. Envolvia a obrigação moral de acolher viajantes com abrigo, comida e presentes, prática protegida por Zeus Xenios, o deus patrono dos estrangeiros — porque os deuses, afinal, podem estar disfarçados de humildes peregrinos.
Então, meus caros novos colegas acadêmicos da Academia de Letras do Paraná:
Alessandra; Alexandre; Antônio; Francieli; Jefferson; João Luiz; Katia; Maise; Marcos; Newmara; Nilson Valdir; Ottavio; Silvia; e Vera,
sejamos um pouco do destemido Ulisses, tenhamos em mente as lições dos estoicos, sejamos generosos e acolhedores com os “estrangeiros” que hoje chegam a esta academia. Isso porque a nossa grande viagem de retorno à nossa Ítaca, nosso lar, que nos traz conforto, serenidade e boas leituras pode ser a Academia de Letras do Paraná que, a partir de hoje será também a nossa casa. Sim, se você acadêmico, querido colega a partir desta data, pensou no oikos grego da nova fase de nossas vidas, da somatória de experiências que acumulados até aqui, inclusive traduzidos nos anos de vida que temos, estás certo; é isso mesmo!
Porque a culpa de Ulisses pelo sofrimento que impôs aos semelhantes troianos jamais pode estar nas nossas costas, pois fomos e seremos sábios com nossas atitudes e com nossos irmãos.
Todos nós chegamos aqui porque travamos algumas batalhas com nossos medos, inseguranças, desafios que a escrita, que a criação literária nos apresentou nesta caminhada e a vencemos. Fomos chamados a fazer parte deste seleto grupo de acadêmicos por algo que construímos por 5, 10, 20 anos ou mais.
Não poderia deixar de lembrar dos nossos queridos/as patronos e patronesses, que nos conferem a confiança de seus nomes, a segurança do que fizeram para estarem como eterno nome da cadeira que transitoriamente ocuparemos aqui na ALP. A todos eles, a todos vocês queridos patronos, nossa honra e glória.
E a nossa Academia, nossa Ítaca, 3.000 anos depois, como queria Zeus, está aqui, de portas abertas, seus moradores nos recebem e se rejubilam pela nossa chegada. Então, estejamos prontos e revigorados para os desafios que nos esperam, de modo a tornar esta futura jornada sempre mais promissora e feliz.
Bem-vindos à casa, bem-vindos à nossa Ítaca, bem-vindos à Academia de Letras do Brasil, Seccional do Paraná!
Curitiba, 06/08/2026.
Luís Molossi – acadêmico cadeira 58 da ALP – Pe. Domênico Costella
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