Vivere Navigare Est

03/01/2025

É um antigo provérbio, mas é perfeitamente aplicável a quem, como eu e tantos outros seres angustiados, tem a vida que se faz viagem, para que ela seja menos pesada, menos inerte, menos cômoda, para que seja possível enfrentá-la com leveza e muita emoção.

Reconhecemos e cultivamos laços com determinados lugares, geramos afetos e criamos o que pode ser chamado topofilia – o amor pelo lugar. Mas esta conexão nunca nos impediu de continuar viajando. Nossa história, especialmente a dos povos migrantes, é uma saga de deslocamento e renascimento. Assim como os persas, macedônicos (o toponímico Molossi tem origem no Épiro grego) e romanos, que transformaram suas jornadas marítimas em impulsos culturais que moldaram o mundo. Sem estas viagens, não haveria o que hoje chamamos de Ocidente Cristão, marcado por expedições evangelizadoras que entrelaçaram territórios e culturas, do Mediterrâneo à Europa do Norte e aos confins do Oriente Médio, como fez o macedônico Alexandre, o Grande.

As Cruzadas e os caminhos dos peregrinos são testemunhos dessa dinâmica: viagens que revelam punição, penitência e expiação, mas também atos de fé e devoção, como revivendo o Calvário de Cristo, um chamamento para seguir nos moldes dos frades mendicantes franciscanos e dominicanos. Inspiraram uma cultura da hospitalidade – uma verdadeira ética medieval – onde acolher o viajante significava partilhar de seu esforço, aliviar sua dor e reconhecer a presença divina na figura do peregrino. Era também uma forma de reverenciar o Cristo peregrino.

Marco Polo, partiu em 1272 do Porto da Armênia para um tour de 24 anos pelo Oriente, o que mudou para sempre as relações entre os 2 hemisférios e a redescoberta europeia pelo fascínio das viagens às terras distantes. Esse ethos, no entanto, também nos levou a desdobramentos mais sombrios: o encontro do Velho Mundo com o Novo, marcado pelo fascínio, mas também pela exploração, a violência e a destruição de culturas inteiras. As jornadas transatlânticas trouxeram riqueza a uns e ruína a outros. O Brasil, forjado pelas mãos de bandeirantes e pela dor de povos originários e africanos escravizados, carrega em si a herança desse processo brutal. Cada rota percorrida – por mar ou por terra – é testemunha do custo humano da construção de uma identidade nacional.

Condição básica para sua existência, a falta de uma casa atribuiu a muitos povos a pecha de segregados, de alguma forma motivada por alguma ofensa que teriam feito ao próprio Deus: ciganos, judeus, boêmios, perseguidos e alguns até exterminados aos milhares em campos de concentração, cercados por arame farpado e, o fim da sua existência na câmara de gás. Ainda hoje, vivemos novas formas de viagem: a corrida espacial, a exploração de outros planetas e a busca pela vida além da Terra. Simultaneamente, mergulhamos nas profundezas do corpo humano, prolongando a vida com biotecnologia e manipulação genética, enquanto atravessamos os territórios virtuais, das atuais redes sociais viciantes, onde somos constantemente bombardeados por imagens de felicidade imediata. É a extensão da viagem da vida que o dinheiro pode comprar, como Édipo – e seu complexo, um personagem da nossa análise freudiana – que chega até as cercanias das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, da terra prometida e da felicidade virtual.

Etimologicamente, nossa jornada ressoa em “sic transit, gloria mundi” de possível origem semântica, como: “assim transita (viaja) a glória do mundo”. A mobilidade se contrapõe à estagnação; a inquietação, à mediocridade. É fora de casa, nos mares incertos da vida, que encontramos a verdadeira essência do ser. Navegar é uma condição humana. E cada viagem, seja externa ou interna, nos convida a reinventar o significado de existir. Ao final, somos tanto os navegantes quanto os mapas de nossa própria travessia. Nas viagens, trocamos o fazer pelo ser. Nosso espírito anseia pelo retorno à infância, onde o caminhar não tem pressa, mas propósito: esquecer o ruído para ouvir o silêncio. O ideal não reside no início ou no fim da jornada, mas pulsa na travessia. São os lugares que moldam as pessoas, que esculpem caráter e traçam destinos. Assim também é a filosofia, um reflexo de nossa própria viagem interior, como os peripatéticos que seguiam Aristóteles em seus passeios.

Em 1952, Che Guevara, então estudante de medicina, embarcou em uma viagem de motocicleta ao lado do amigo Alberto Granado. O que começou como uma aventura repleta de hedonismo juvenil logo se transfigurou em um encontro visceral com as belezas e as tragédias da paisagem andina. A realidade crua do campesinato indígena empobrecido transformou sua perspectiva e, talvez, sua alma. Fernando Pessoa (2005, p. 107) sintetiza essa inquietação em seu verso: “Viajar! Perder países!”. Viajar é renunciar à paz, é permitir-se ser moldado pelas experiências e pela paisagem. É um ato de "despertencer", de contemplar o desconhecido e sentir-se ausente de si mesmo, apenas para reencontrar-se em uma nova forma.

Esta introdução que foi ao início das grandes viagens que conhecemos, das conquistas e tragédias de inteiros povos, quer também dizer que os imigrantes italianos, majoritariamente do Norte da Itália e que aqui no Sul do Brasil desembarcaram aos milhares a partir de 1875, também fizeram a sua grande e derradeira viagem. E ocorreu que assim fosse analisada depois de ouvir – atentamente – o sermão do Frade Arlindo Battistel, por ocasião da abertura do Incontro Nassional dei Difusori del Talian, em 29/11/2024, em Nova Bassano-RS. Frei Arlindo explica a situação de um povo, aquele que fazia parte da milenar Sereníssima República de Veneza e que, por força de crises econômicas, invasões de países vizinhos e decisões políticas regionais e nacionais, viu-se na eminência de emigrar – fazer a grande viagem – ou morrer até de fome.

A nossa América, “Mèrica” para quase todos eles, era a esperança, depois de ajustes com intermediários, garantias e interesse do governo imperial brasileiro, promessas de vida nova, um pedaço de terra e, até mesmo o sonho da CUCAGNA. Qualquer coisa era melhor do que tinham (ou não) nas montanhas frias do Norte da Itália e eles sabiam que com coragem, trabalho e muita fé, a viagem se tornaria motivo de orgulho, cedo ou tarde. Era preciso viajar! E, assim, famílias inteiras com até 10 ou 15 membros deixavam o Porto de Gênova para uma grande travessia, de um Continente a outro, sem volta para 99% deles. Depois dos 36 dias de navio, cansaço, pouca infraestrutura, mata fechada, perigos, doenças e todas as condições adversas imagináveis, a ocupação lenta e gradual dos lotes – outra viagem difícil, a pé, com carroças puxadas a bois ou cavalos, por vários dias, em estradas precárias, barrentas ou empoeiradas – iniciou outro processo, o da ocupação, que exigiu solidariedade, caridade e religiosidade que os mantinha vivos e firmes no seu propósito de fazer aquela viagem para a “Mérica” e para o meio das matas fechadas do Sul do Brasil valer a pena.

Frei Arlindo nos emociona com relatos muito peculiares do que ele escutou de seus familiares, das práticas pessoais e sociais trazidas com eles, dos nascimentos, casamentos, do tratamento aos doentes, o respeito com os mais velhos e até... a morte. Essa que é a nossa última e derradeira viagem. “De iutar-se uno col altro, voer-se ben e rispetarse tuto par el amore di Dio!” Esta frase resume quase tudo, do modo como as agruras foram enfrentadas, como deveriam ser os relacionamentos nas e entre as famílias dos colonos, o respeito mútuo e o amor, a devoção a Deus. Isso porque os sacerdotes vieram, viajaram para cá depois, nos primeiros anos, décadas até, e eram os próprios colonos a resolver tudo, no pequeno e difícil ambiente da incipiente colônia, longe, sem boas estradas e com quase nenhuma comunicação com outras localidades e muito menos autoridades ou assistência que pudessem socorrê-los.

Frei Arlindo não deixou de mencionar os poucos momentos de festa e lazer possíveis: os jogos de cartas, bochas, as cantorias e alguns copos de vinho. As ajudas mútuas nos negócios, na lida do campo, no plantio e na colheita, motivos de esforço, mas de congraçamento, de reunião para resolver assuntos comuns a todos. Se não era a “cucagna”, deveriam estar bem perto. E eles nunca foram exigentes em nada. Bastava ter o que comer... Isso para que a viagem da vida, que podia durar de 40, quando muito afortunados, aos 80 ou 90 anos, não fosse em vão, que tivesse valido à pena. Frei Arlindo não fez esta homilia, este sermão por acaso: ele já percorreu uma grande viagem em sua vida, desde os estudos religiosos, a formação para a sua missão de ser uma luz no meio das colônias precárias de estudo, conhecimento e sabedoria. E as dezenas de maravilhosos livros publicados, verdadeiras enciclopédias, como “retratos” eternos da nossa colônia.

A “Messa in Talian” foi apenas uma parada numa das estações de trem ou um porto imaginário que a Imigração Italiana nos faz recordar neste momento dos 150 Anos da Imigração Italiana no Brasil, que comemoramos em 2025. De Bassano del Grappa, iam os imigrantes até Vicenza e, dali até Gênova. Depois, a grande viagem até a Ilha das Flores/Rio de Janeiro, Santos, Rio Grande, Porto Alegre, São Sebastião do Caí ou aquele em que se pudesse chegar mais perto do lote de terras adquirido, o fim da longa viagem à “terra prometida”.

Nova Bassano tem orgulho de fazer parte desta história, de ser um dos destinos, a partir de 1891, desta viagem de muitas destas famílias de colonos italianos, de maioria vêneta. E, neste mesmo dia, na abertura do “Incontro Nassional” fizemos publicar o livro “El Bassan che Parla Talian”, uma pequena viagem ao passado da nossa colônia, com suas histórias que precisavam ser preservadas – e na Língua Talian – patrimônio desta longa viagem cultural do nosso povo.

É uma honra poder homenageá-lo, Don Arlindo Itacir Battistel, com todo o seu mérito e orgulho para todos nós, como “ECCELLENZA VENETA NEL MONDO 2024”!

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Luís Molossi

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